terça-feira, 18 de março de 2014

Primeira geração romântica portuguesa

As primeiras produções poéticas do Romantismo em Portugal abordavam, não só os temas lírico-amorosos, medievais, populares e folclóricos, havia o desejo de resgatar as manifestações culturais mais antigas e genuínas de cada povo, para construir com elas um sentimento de nação, de unidade nacional.

Esse movimento ocorreu durante os anos de instabilidade em Portugal. De um lado, estava Dom Pedro IV (Dom Pedro I do Brasil), que representava a tentativa de implantação do liberalismo no país; do outro lado, Dom Miguel, seu irmão absolutista. Derrotado, Dom Pedro cede o trono português ao irmão, e só consegue reavê-lo em 1834, quando o liberalismo finalmente venceu. O primeiro romantismo contribui muito para a consolidação do liberalismo em Portugal. Os ideais românticos dessa geração estão embasados na pureza e originalidade.


Principais Autores Românticos dessa geração:


Almeida Garrett


João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854), conhecido como Almeida Garrett nasceu na cidade de Porto. Foi o primeiro autor do Romantismo em Portugal, entretanto, apesar de ser um dos principais autores do movimento romântico, ele nunca chegou a ser um autêntico romântico, por não conseguir deixar de lado a contenção racional e o equilíbrio típico do Arcadismo.


Sua obra mais importante é Folhas caídas (1853), dedicada à Viscondessa da luz, por quem foi apaixonado já no final de sua vida. Percebe-se características neoclássicas: o poema pensa no sentimento, narra a experiência vivida e não uma sugestão do estado de paixão. Nesse poema, percebe-se, muitas características que se fortalecem durante o Romantismo: a mulher ausente, distante e muda faz nascer a paixão do eu lírico, o sentimento é o tema.


Principais obras: Camões (1825), Dona Branca (1826), Adozinda (1828), Catão (1828), Romanceiro (1843), Cancioneiro Geral (1843), Frei Luis de Sousa (1844),Flores sem Fruto (1844), D’o Arco de Santana (1845),Folhas Caídas (1853).

Não te amo


Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n'alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.



GARRETT, Almeida. In: MOISÉS, Massaud.
A literatura portuguesa através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1997





Alexandre Herculano


Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (1810-1877), conhecido como Alexandre Herculano, nasceu em Lisboa. Herculano foi um dos mais altos espíritos da literatura portuguesa do seu tempo. “Eurico, o presbítero” é uma de suas obras mais importantes. Nesse romance histórico, ele analisou tema do celibato clerical, mostrando sua incompatibilidade com a liberdade da paixão amorosa. Retrata também a época da invasão dos árabes na Península Ibérica durante a Idade Média.


Principais obras: O Bobo (1843), Eurico, o presbítero (1844),Cartas sobre a História de Portugal (1842),Lendas e narrativas (1851),História de Portugal (1º vol.) (1846),(2º vol.) (1847),O monge de Cister (1848).


Observe no trecho da obra Eurico, o presbítero, a seguir, características dessa geração:


Desde essa época, a distinção das duas raças, a conquistadora ou goda e a romana ou conquistada, quase desaparecera, e os homens do norte haviam se confundido juridicamente com os do meio dia em uma só nação, para cuja grandeza contribuíra aquela com as virtudes ásperas da Germânia, esta com as tradições da cultura e polícia romanas. As leis dos césares, pelas quais se regiam os vencidos, misturaram se com as singelas e rudes instituições visigóticas, e já um código único, escrito na língua latina, regulava os direitos e deveres comuns quando o arianismo, que os godos tinham abraçado abraçando o evangelho, se declarou vencido pelo catolicismo, a que pertencia a raça romana. Esta conversão dos vencedores à crença dos subjugados foi o complemento da fusão social dos dois povos. A civilização, porém, que suavizou a rudeza dos bárbaros era uma civilização velha e corrupta. Por alguns bens que produziu para aqueles homens primitivos, trouxe lhes o pior dos males, a perversão moral. A monarquia visigótica procurou imitar o luxo do império que morrera e que ela substituíra. Toletum quis ser a imagem de Roma ou de Constantinopla. Esta causa principal, ajudada por muitas outras, nascidas em grande parte da mesma origem, gerou a dissolução política por via da dissolução moral. 





Antônio Feliciano de Castilho


Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875), nasceu em Lisboa. Devido ao sarampo, ficou cego com seis anos,

Obras Principais: Cartas de Eco e Narciso (1821); A Primavera (1822); Amor e Melancolia (1828); A Chave do Enigma; A Noite do Castelo (1836); Os Ciúmes do Bardo (1836); Crónica Certa e muito Verdadeira de Maria da Fonte (1846); Felicidade pela Agricultura (1849); Escavações Poéticas (1844); Presbitério da Montanha; Quadros da História de Portugal (1838); O Outono (1863).


"Dentro de mim uma corrente de nomes e evocações fluindo desde as minhas origens, como o Rio das Velhas no seu leito de pedras, entre cidades imemoriais... Prefiro estancá-la no tempo, a exaurir-me em impressões arrancadas aos pedaços e que aos poucos descobririam o que resta de precioso em mim - o mistério de minha terra, desafiando-me como a esfinge com seu enigma: decifra-me ou devoro-te.

Prefiro ser devorado."



Os trechos da postagem foram extraídos do livro ¨viva português-volume 2¨, editora ática; "A Chave do Enigma", Editora Record - Rio de Janeiro, 1999 e ¨Eurico, o presbítero¨, editora Martin claret - São Paulo, 2002.

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